Do Nascimento à Adolescência: As Principais Patologias Testiculares Que os Pais e Cuidadores Precisam Conhecer

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Do Nascimento à Adolescência: As Principais Patologias Testiculares Que os Pais e Cuidadores Precisam Conhecer

Do Nascimento à Adolescência: As Principais Patologias Testiculares Que os Pais e Cuidadores Precisam Conhecer

Do Nascimento à Adolescência: As Principais Patologias Testiculares Que os Pais e Cuidadores Precisam Conhecer

Por Dr. Umberto Amsei — Urologista e Uropediatra | São Paulo

Hospital Albert Einstein · Hospital Sírio-Libanês · Hospital Infantil Sabará

Muitos pais chegam ao consultório com uma mistura de embaraço e preocupação porque perceberam algo diferente na bolsa testicular do filho, mas não sabiam exatamente com quem falar sobre isso. Às vezes é o pediatra que encaminhou. Outras vezes são os próprios pais que notaram uma assimetria testicular, um inchaço, um caroço ou simplesmente a ausência de um testículo na bolsa. E chegam ao consultório sem saber se o que encontraram é grave, benigno ou urgente. Essa dúvida é o ponto de partida de quase toda consulta de uropediatria relacionada às patologias testiculares em crianças.

As patologias testiculares na infância e na adolescência formam um espectro amplo: vão das condições benignas e autolimitadas, como a hidrocele do recém-nascido, até as emergências cirúrgicas que não toleram nenhuma demora, como a torção testicular. Entre esses extremos, existem condições que exigem seguimento regular, outras que têm janela cirúrgica ideal e outras que precisam ser identificadas precocemente para preservar a fertilidade e reduzir o risco oncológico no futuro. A assimetria testicular, por si só, pode ser o primeiro sinal de várias dessas condições e reconhecê-la como algo que merece avaliação é o que faz a diferença no desfecho.

Neste artigo, vou apresentar as principais patologias testiculares que afetam crianças e adolescentes, da criptorquidia ao tumor testicular, passando pela varicocele, pela hidrocele, pela torção e pela microlitiase testicular, explicando o que são, como se manifestam, como são diagnosticadas e tratadas, e por que o acompanhamento especializado desde cedo protege a saúde do homem que esse menino vai se tornar. E vou falar também sobre o autoexame testicular: a ferramenta mais simples e mais subutilizada de proteção à saúde masculina.

📋 Neste artigo você vai encontrar:

  • Ectopia testicular: o testículo que não desceu e o tempo que não perdoa
  • Hidrocele e hérnia inguinal: quando o inchaço escrotal é benigno e quando não é
  • Torção testicular: a emergência que nenhuma família deveria subestimar
  • Varicocele: a dilatação silenciosa que pode comprometer a fertilidade
  • Assimetria testicular: o que ela significa e quando investigar
  • Tumor testicular em crianças e adolescentes: diagnóstico precoce salva
  • Microlitiase testicular: achado incidental e seu seguimento
  • Orquite e epididimite: inflamação e infecção testicular na infância
  • Autoexame testicular: como ensinar, quando começar e por que é essencial
  • Conclusão: o acompanhamento urológico como proteção de longo prazo

1. Ectopia testicular: O Testículo Que Não Desceu e o Tempo Que Não Perdoa

A ectopia testicular (ausência de um ou ambos os testículos em posição escrotal normal ao nascimento) é a patologia testicular congênita mais comum em meninos, afetando maior proporção de prematuros do que de bebês a termo, conforme descrito pela Sociedade Brasileira de Urologia. Em muitos casos, o testículo completa sua descida espontaneamente nos primeiros meses de vida, especialmente em prematuros. Quando isso não acontece até os seis a doze meses de vida corrigida, a intervenção cirúrgica está indicada.

A importância do diagnóstico e tratamento precoce da ectopia testicular está diretamente ligada à temperatura. As células germinativas, responsáveis pela produção de espermatozoides, devem ser mantidas a uma temperatura alguns graus abaixo da temperatura corporal central e é exatamente por isso que ele fica na bolsa escrotal. Um testículo mantido em posição intra-abdominal ou inguinal fica exposto ao calor corporal, o que compromete progressivamente o desenvolvimento dessas células. Além da fertilidade, a ectopia testicular não tratada está associada a maior risco de tumor testicular e o testículo fora da bolsa é impossível de ser avaliado pelo autoexame.

A cirurgia de correção (orquidopexia) deve ser realizada idealmente entre os 6, até no máximo os 18 meses de vida, conforme as diretrizes da Associação Europeia de Urologia Pediátrica (ESPU). Quando o testículo é impalpável, não encontrado ao exame físico,, a videolaparoscopia é utilizada para localizá-lo e realizar a orquidopexia em uma ou duas etapas. A assimetria testicular detectada nos primeiros meses de vida, com um lado da bolsa visivelmente vazio, é o sinal clínico mais frequente de criptorquidia e deve motivar a consulta com o urologista pediátrico sem demora.

2. Hidrocele e Hérnia Inguinal: Quando o Inchaço Escrotal É Benigno e Quando Não É

A hidrocele, acúmulo de líquido ao redor do testículo dentro da bolsa escrotal, é uma das patologias testiculares mais comuns no período neonatal e tende a se resolver espontaneamente no primeiro ano de vida, à medida que o processo vaginal - canal que deveria se fechar após a descida do testículo — se obliterar naturalmente.

A distinção entre hidrocele não comunicante (líquido isolado na bolsa, sem comunicação com o abdome) e hidrocele comunicante (com processo vaginal patente que permite a entrada e saída de líquido peritoneal) tem implicação direta no prognóstico e na conduta. A hidrocele comunicante que persiste além dos dois anos de vida tem indicação cirúrgica, pois carrega o mesmo risco de encarceramento da hérnia inguinal. A hérnia inguinal, por sua vez, é a patologia testicular e inguinoescrotal que exige correção cirúrgica eletiva em prazo razoável, porque o risco de encarceramento de conteúdo intestinal ou ovariano é real e potencialmente grave. A bolsa escrotal que aumenta com o choro e reduz no repouso é o sinal clínico mais característico de hérnia inguinal e deve motivar consulta precoce com o urologista pediátrico.

⚠️ Sinal de alerta: hérnia encarcerada: Se a bolsa do seu filho ficar dura, não reduzir espontaneamente e vier acompanhada de choro intenso, vômitos ou barriga distendida, procure brevemente um serviço de emergência. Hérnia inguinal encarcerada é uma urgência cirúrgica real.

3. Torção Testicular: A Emergência Que Nenhuma Família Deveria Subestimar

A história clássica é a chegada do paciente ao pronto-socorro, horas após o início de uma dor testicular intensa, porque acharam que ia passar ou ficaram com vergonha de contar aos pais e até porque não sabiam que aquilo era uma emergência. A torção testicular é, sem exagero, uma das patologias testiculares mais críticas em termos de tempo: ocorre quando o testículo gira sobre o próprio cordão espermático, interrompendo o fluxo sanguíneo para o órgão. A viabilidade testicular depende diretamente do tempo decorrido entre o início dos sintomas e a exploração cirúrgica; quanto mais precoce a intervenção, maiores as chances de preservar o testículo.

A torção testicular pode ocorrer em qualquer faixa etária, inclusive em recém-nascidos. O quadro clínico típico é de dor testicular súbita e intensa, frequentemente acompanhada de náuseas e vômitos, com o testículo ascendido e em posição horizontal dentro da bolsa. A assimetria testicular aguda, um testículo visivelmente mais alto, mais duro e doloroso do que o outro é o sinal físico mais característico. O diagnóstico é clínico, que pode ser confirmado pelo Doppler do ultrassom escrotal, demonstra ausência ou redução do fluxo sanguíneo ao testículo afetado. Mas a suspeita clínica forte justifica exploração cirúrgica imediata sem aguardar o exame de imagem quando isso significar perda de tempo.

O tratamento é sempre cirúrgico e de emergência: detorção do testículo, avaliação da viabilidade e orquidopexia bilateral (fixação de ambos os testículos à bolsa escrotal) para prevenir a torção no lado contralateral, que tem o mesmo risco anatômico. Quando o testículo não é viável ao momento da exploração, a orquiectomia é necessária. A torção testicular é a patologia testicular que mais se beneficia de famílias bem informadas, pois são eles que irão decidir ir se e quando ir à emergência.

4. Varicocele: A Dilatação Silenciosa Que Pode Comprometer a Fertilidade

A varicocele é a dilatação das veias do plexo pampiniforme, a rede venosa que drena o testículo, e é uma das patologias testiculares mais frequentemente diagnosticadas na adolescência. Afeta predominantemente o lado esquerdo, por razões anatômicas relacionadas ao ângulo de drenagem da veia gonadal esquerda, e pode se manifestar como uma sensação de peso ou desconforto escrotal ou ser completamente assintomática e descoberta apenas ao exame físico.

A estase venosa eleva a temperatura escrotal e pode comprometer progressivamente a espermatogênese. Um sinal físico importante da varicocele é a assimetria testicular por hipotrofia, quando o testículo esquerdo, afetado pela varicocele, tende a ser menor do que o direito, com risco de comprometimento do desenvolvimento testicular. Essa assimetria testicular por hipotrofia ipsilateral é um dos critérios mais importantes para indicação cirúrgica da varicocele no adolescente, conforme as diretrizes da ESPU.

O diagnóstico da varicocele é clínico (exame físico) e classificada em graus I, II e III. Confirmado pelo ultrassom escrotal com Doppler. A varicocelectomia (cirurgia de ligadura das veias dilatadas) pode ser realizada por via laparoscópica ou microcirúrgica subinguinal. A decisão entre observação e cirurgia é individualizada, baseada no grau da varicocele, na presença de assimetria testicular por hipotrofia e, quando disponível, nos parâmetros do espermograma.

5. Assimetria Testicular: O Que Ela Significa e Quando Investigar

A assimetria testicular é um dos achados mais frequentes que motiva a consulta urológica pediátrica e adolescente e sua importância clínica depende completamente do contexto: o que é assimetria fisiológica, o que é sinal de patologia testicular e o que exige investigação imediata.

Uma leve assimetria testicular de tamanho é fisiológica. Alguns trabalhos mostram que o testículo esquerdo costuma ser discretamente menor e situar-se um pouco mais baixo do que o direito na maioria dos homens. Essa variação normal não exige investigação. O que merece avaliação é a assimetria testicular clinicamente significativa, diferença maior que 20% de volume entre os dois testículos ou qualquer mudança na simetria testicular ao longo do tempo. A assimetria testicular por hipotrofia de um lado pode indicar varicocele, sequela de torção ou atrofia pós intervenções. A assimetria testicular por aumento de um testículo, especialmente quando indolor e endurecido, é um sinal de alerta para tumor testicular e exige avaliação urgente.

O ultrassom escrotal com Doppler é o exame de escolha para avaliar a assimetria testicular. Ele quantifica os volumes testiculares, avalia o parênquima de cada testículo, identifica nódulos ou alterações de ecotextura e avalia o fluxo vascular. Na presença de assimetria testicular significativa sem causa aparente, a avaliação com o urologista pediátrico não deve ser postergada porque o diagnóstico precoce das patologias testiculares que causam assimetria define o prognóstico.

6. Tumor Testicular em Crianças e Adolescentes: Diagnóstico Precoce Salva

O tumor testicular é o câncer sólido mais comum em homens entre 15 e 35 anos, conforme dados do Instituto Nacional do Câncer (INCA), e uma das patologias testiculares com maior taxa de cura quando diagnosticado precocemente. Em crianças menores de dois anos, os tumores testiculares são predominantemente benignos, com destaque para o teratoma maduro. Na adolescência e na vida adulta jovem, os tumores de células germinativas, especialmente o seminoma e o carcinoma embrionário, são bastante frequentes.

A apresentação clínica mais comum do tumor testicular é um nódulo indolor, endurecido, de crescimento progressivo, que pode causar assimetria testicular. A ausência de dor é justamente o que leva muitos jovens a postergar a consulta porque associam dor a problema e ausência de dor a normalidade. Essa premissa é equivocada e pode custar semanas ou meses de atraso no diagnóstico.

O diagnóstico do tumor testicular inclui ultrassom escrotal, que identifica e caracteriza o nódulo, dosagem de marcadores tumorais séricos — alfafetoproteína (AFP), beta-HCG e DHL — e tomografia computadorizada de tórax, abdome e pelve para estadiamento. Em crianças menores de dois anos, a AFP tem valores fisiologicamente elevados, o que exige interpretação cuidadosa pelo especialista. O tratamento depende do tipo histológico e do estadiamento e inclui desde a orquiectomia inguinal isolada até quimioterapia e radioterapia nos casos mais avançados.

7. Microlitíase Testicular: Achado Incidental e Seu Seguimento

A microlitíase testicular é caracterizada pela presença de pequenos depósitos calcificados (microlitos) distribuídos pelo parênquima testicular, visíveis ao ultrassom como pontos hiperecogênicos sem sombra acústica. É uma das patologias testiculares que mais gera dúvida e ansiedade nos pais e que, paradoxalmente, na maioria dos casos isolados não exige tratamento.

A microlitíase testicular tem sido associada, em alguns estudos, a maior risco de tumor testicular, especialmente em pacientes com fatores de risco adicionais, como criptorquidia, assimetria testicular por atrofia ou histórico familiar de tumor testicular. No entanto, a evidência atual não suporta a indicação de biópsia testicular rotineira apenas pela presença de microlitíase, conforme as diretrizes da Associação Europeia de Urologia. O que se recomenda é o seguimento regular com ultrassom escrotal anual e a prática do autoexame testicular mensal para identificar precocemente qualquer alteração de volume ou consistência que possa indicar o desenvolvimento de uma patologia testicular associada.

Em adolescentes com microlitíase testicular, a consulta regular com o urologista é fundamental e a educação sobre o autoexame testicular se torna ainda mais importante do que na população geral. A microlitíase testicular é, antes de tudo, um motivo para manter o seguimento urológico ativo e não uma sentença de doença.

8. Orquite e Epididimite: Inflamação e Infecção Testicular na Infância

A epididimite (iinflamação do epidídimo) e a orquite (inflamação do testículo) são patologias testiculares inflamatórias que podem se manifestar isoladamente ou em conjunto (orquiepididimite) e que precisam sempre ser distinguidas da torção testicular — uma emergência cirúrgica com apresentação clínica semelhante.

Em crianças pré-púberes, a epididimite costuma ser causada por infecção urinária por bactérias entéricas e pode estar associada a malformações do trato urinário como refluxo vesicoureteral ou válvula de uretra posterior. Em adolescentes e adultos jovens sexualmente ativos, as causas incluem infecções sexualmente transmissíveis, especialmente Chlamydia trachomatis e Neisseria gonorrhoeae. O diagnóstico da epididimite e orquite é feito pelo exame físico com o epidídimo aumentado e doloroso, testículo preservado ou também comprometido e confirmado pelo ultrassom escrotal com Doppler, que demonstra hipervascularização da estrutura inflamada, que é o oposto da torção, que mostra ausência de fluxo.

O tratamento inclui antibioticoterapia adequada ao agente etiológico suspeito, suporte escrotal, analgesia e acompanhamento clínico. Em crianças com epididimite confirmada, a investigação do trato urinário inferior, incluindo uretrocistografia miccional, é bastante indicada para descartar malformações associadas. A orquite viral, frequentemente associada ao vírus da caxumba em adolescentes não vacinados, é uma patologia testicular que pode comprometer a espermatogênese quando bilateral e não tratada precocemente. A vacinação contra caxumba, incluída no calendário vacinal do SUS, é a principal medida preventiva.

9. Autoexame Testicular: Como Ensinar, Quando Começar e Por Que É Essencial

Recebo adolescentes que nunca ouviram falar do autoexame testicular e adultos jovens que chegam ao consultório com tumor testicular em estágio avançado porque nunca aprenderam a palpar o próprio testículo. O autoexame testicular é a ferramenta mais simples, mais acessível e mais subutilizada de proteção à saúde masculina. Ele não substitui o acompanhamento médico regular mas é o que permite ao jovem identificar precocemente uma alteração que, em muitos casos, só será sentida por ele mesmo.

O autoexame testicular deve ser ensinado a partir da puberdade, por pais, médico, enfermagem ou educadores de saúde, e realizado mensalmente, preferencialmente após o banho quente, quando o escroto está relaxado. A técnica é simples: com as duas mãos, o jovem palpa cada testículo individualmente, rolando-o gentilmente entre o polegar e os demais dedos. O que procurar: nódulos de qualquer tamanho, endurecimento localizado, assimetria testicular nova ou progressiva, sensação de peso ou desconforto. O epidídimo, estrutura alongada na face posterior do testículo, é normalmente palpável e não deve ser confundido com um nódulo anormal.

10. Conclusão: O Acompanhamento Urológico Como Proteção de Longo Prazo

Neste blog post falamos sobre a ectopia testicular e a importância do tratamento cirúrgico precoce para preservar a fertilidade, a hidrocele e a hérnia inguinal, quando o inchaço escrotal é benigno e quando exige cirurgia, a torção testicular como emergência que não tolera demora, a varicocele e sua relação com a assimetria testicular e a fertilidade, o significado clínico da assimetria testicular e quando ela exige investigação, o tumor testicular em crianças e adolescentes e a importância do diagnóstico precoce, a microlitíase testicular e por que ela necessita de seguimento regular, a orquite e a epididimite como patologias testiculares inflamatórias que precisam ser diferenciadas da torção, e o autoexame testicular como ferramenta essencial de proteção à saúde masculina a partir da puberdade.

As patologias testiculares na infância e na adolescência têm em comum uma característica fundamental: o desfecho depende diretamente de quão cedo o problema é identificado e tratado. A criptorquidia tratada no primeiro ano de vida tem resultados muito melhores do que a tratada aos cinco. A torção testicular operada nas primeiras horas tem prognóstico radicalmente diferente da que esperou até o dia seguinte. O tumor testicular diagnosticado pela assimetria testicular que o próprio jovem notou no autoexame muitas vezes tem cura, já o avançado, nem sempre. Informação salva testículos. E testículos saudáveis fazem parte de homens saudáveis.

Como urologista pediátrico acompanho patologias testiculares em todas as faixas etárias, do recém-nascido ao adolescente. Com uma abordagem que integra diagnóstico preciso, tratamento cirúrgico no momento certo e educação em saúde para pais, cuidadores e os próprios jovens.

Conteúdo desenvolvido pelo Dr. Umberto Amsei

Urologista e Uropediatra

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